quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Onde está o valor social dos programas policiais?

Cenários cheios de cores, apresentadores fanfarrões, helicópteros à caça da primeira perseguição policial e muita, mas muita violência. Está na cara que falamos dos programas policiais que alavancam os índices de audiência na tevê brasileira.

CapturarPara a sociedade, especificamente os consumidores desta programação, os frontmans que esbravejam com os repórteres, repetem exaustivamente sua “indignação” diante de crimes bárbaros e colam bordões jornalísticos nas paredes da memória de seus espectadores são considerados especialistas quando o assunto é a segurança pública.

Mas serão mesmo?

Esta resposta está clara e cristalina na pesquisa recentemente publicada pela USP. Em Jornalismo Policial: Indústria Cultural e Violência, o autor Davi Mamblona Marques Romão descreve a exploração da violência nos programas ditos jornalísticos. Ao analisar o Brasil Urgente, Cidade Alerta e Balanço Geral, Romão identifica a padronização da linguagem a cada edição, poderosa tática para prender a atenção dos telespectadores, nas palavras do acadêmico.

Mas e o valor social de tudo isso? Realmente, não há. A proposta, ao comover o cidadão com um discurso de revolta e indignação, é levar a pessoa a ficar amarrada ao mais do mesmo. E a este círculo vicioso de falso senso de justiça soma-se a exploração do estereótipo do criminoso – o pardo, pobre, de sexo masculino, elementos que constroem a discriminação e o preconceito por parte da sociedade.

Os programas policiais querem conquistar a todo o preço a audiência ao dar espaço para cenas de violência, dor e sofrimento. Exploram recortes da violência urbana, a exemplo do assassinato do menino Joaquim no interior paulista. A informação de #interessepublico e a reflexão, muito pertinentes na construção de um diálogo coerente sobre a segurança pública, estão abandonadas.

Quer um exemplo? Jornais divulgam hoje alerta da OMS sobre epidemia de homicídios em 11 países latino-americanos, relação que inclui o Brasil. Será que algum dos programas policiais vai falar deste estudo? Certamente, levantar um debate construtivo sobre a segurança está longe da linha editorial do noticiário que depende da violência para permanecer no ar.

Recomendamos a quem consome avidamente este tipo de conteúdo a leitura isenta deste estudo. As conclusões de Romão estão em perfeita sintonia com a nossa bandeira da #naoviolencianamidia.